Quando cheguei em Barcelona há dois anos, tinha uma certa dúvida sobre como seria o tema do catalão e do castelhano. Mais de uma vez, me disseram que aqui o castelhano, definitivamente, não era bem visto. Algo parecido a aquela máxima de que os franceses torcem o nariz para o inglês.
Na verdade, estava mais preocupado em aprender o castelhano, mas não esquecia o tema, sempre pensando em como seria viver essa tão comentada rejeição catalã ao castelhano. Nesses dois anos, me surpreendi só uma vez.
Num evento, trabalhando para um jornal local, perguntei a um Conseller da Generalitat (como se fosse um ministro do governo catalão), se podia entrevistá-lo. Comecei assim:
- Perdoni, estic estudiant el català, però encara no el parlo. (Perdão, estou estudando o catalão, mas ainda não sei falar).
E em seguida me apresentei em castelhano. O senhor, irredutível, respondeu que daria a entrevista sem problemas, mas em catalão. Ou seja, eu perguntando em castelhano e ele devolvendo no seu idioma materno. Não queria discutir porque necessitava de respostas e porque não era o caso, mas depois pensei no bilingüismo, previsto na constituição espanhola.
Alguns amigos catalães, no entanto, me explicaram que esse senhor, por ser um alto cargo do governo catalão, dificilmente utilizará o castelhano, seja por convicção ou quase por imposição do cargo. Vivi apenas esse caso, e nunca, para ser bem sincero, me desrespeitaram nas ruas por falar em castelhano.
Toco no tema porque esses dias a Telemadrid, televisão da Comunidade Autônoma de Madri (ou seja, a capital do Estado espanhol, com todas as influências disso), transmitiu o programa Cidadãos de segunda, que gerou muita polêmica. A mensagem é a de que, na Catalunya, quem utiliza o castelhano é discriminado.
Não concordo.
Embora minha experiência seja muito limitada, não noto nas ruas o clima tão carregado de discriminação que eles tentam reproduzir no programa. Em todo caso, aqui está o vídeo (o princípio já vale para enteder a polêmica):


