Em 2004, de turismo pelo País Basco, vi selos do ETA pintados nas portas do comércio. É o mais real do grupo separatista que pude ver até hoje. Meses antes, toda a Espanha tinha saído às ruas para exigir do governo a verdade sobre os autores dos ataques terroristas contra Madri que deixaram 191 mortos e mais de 1.400 feridos.
As manifestações no Paseo de la Castellana, Madri (veja o mapa), em Barcelona e em outras cidades espanholas foram convocadas em grande parte com mensagens SMS. Para a maioria da população, a administração do ex presidente do governo José María Aznar mentia tentando responsabilizar o ETA pelos ataques.
As eleições presidenciais, que se realizariam três dias depois dos atentados, estavam em jogo, e por isso o governo Aznar manipulou a informação para que a culpa do massacre recaísse sobre o ETA.
A Espanha precisará de muito tempo para decantar as lembranças mais duras dos ataques. O julgamento dos suspeitos de envolvimento nos atentados, iniciado este ano e com cobertura diária da imprensa, revela que a suposta rede de terroristas acusados e o ETA nunca tiveram qualquer tipo de ligação.
O pior é que o Partido Popular (PP), praticando uma oposição irresponsável, mantém a mentira, insistindo indiretamente na culpabilidade do ETA - um editorial recente do El País no poderia ser mais contundente: “Seguem mentindo” -.
Isso justo no momento em que o governo Zapatero tenta assinar um acordo de paz com o ETA, que há muito não encontra o mesmo apoio nas ruas. A ditadura já não existe, a Espanha olha decidida para a Europa e a população quer o fim do terrorismo.
Alguns dizem que o acordo de paz poderia ser assinado antes das aleições presidenciais de 2008, mas será preciso muito esforço do governo, da oposição e um compromisso real do ETA para que a previsão se confirme.


