Per a tothom
Um blog em CatalunyaArquivo para Janeiro, 2008
70 anos depois
Um dos primeiros posts de Per a tothom conta um pouco da praça Sant Felip Neri (lembra aqui). No dia 30 de janeiro de 1938, aviões italianos bombardearam a igreja dessa praça. Barcelona se transformava em campo de provas para as novas técnicas de bombardeio da população civil – as mesmas técnicas que, durante a Segunda Guerra Mundial, aterrorizariam Londres –.
Naquele 30 de janeiro, atentas às sirenes de aviso, as 30 crianças hospedadas na igreja – evacuadas de outras cidades espanholas – fizeram o que haviam aprendido: esconder-se no refúgio do sótão. O que ninguém sabia é que o teto do suposto refúgio, ao contrário das paredes, não estava feito de pedras e oferecia pouca proteção. A bomba rompeu a vidraça de uma das janelas da igreja, seguiu o seu curso e, vencido o teto do refúgio, explodiu, matando imediatamente as 30 crianças.
Ontem, 70 anos depois, a Direcció General de Memòria Democràtica exibiu o documentário La canalla(da) de Sant Felip Neri, de Pablo Tulián e Nicolás Escobar. Entre depoimentos de sobreviventes do bombardeio e alunos da escola situada atualmente ao lado da antiga igreja (hoje um convento), os realizadores recuperaram a história daquelas crianças, assim como as recordações dos sobreviventes.
Aqui entram muitos temas, como a exposição da população civil à guerra, os exageros de nacionalistas e republicanos durante a Guerra Civil Espanhola, o esquecimento das vítimas e sobreviventes, o debate histórico envolvendo temas ainda delicados e a necessidade de chamar a atenção das novas gerações (havia estudantes da escola de Sant Felip Neri na exibição).
Para quem quiser saber mais sobre os bombardeios em Barcelona (e tiver um pouco de tempo), vale a pena visitar a web Quando choviam bombas. Ao clicar em “Recreacions 3D amb bombardeigs”, e depois no primeiro mapa que aparece, surge uma tela com outros três mapas. No lado esquerdo, abaixo, há um link para um filme (pel·licula).
O El Períódico de Catalunya, por sua vez, explica melhor o bombardeio de 30 de janeiro.
Trilha BCN
Músicas que me tocaram em janeiro:
Love is a losing game; Amy Winehouse; Frank
No cars go; Arcade Fire; Neon Bible
L.A. Jazz Song; Booker T. & The M.G.’s; Melting Pot
You Don’t Know me; Caetano Veloso; Transa
Woman Left Lonely; Cat Power; Jukebox
False Alarm; KT Tunstall; Eye To Telescope
High Rise; Ladytron; Witching Hour
Marchand De Cendres; Souleymane Diamanka; L’Hiver Peul
Please Please Please Let Me Get What I Want; Clayhill; This is England (OST)
Para os amigos
Esse post vai dedicado ao Danilo e à Rafa, casal de amigos que está para chegar. Duas companhias ideais para uma boa mesa, caminhadas sem hora e dias de praia.
- Paciência com os espanhóis e catalães. Eles, afinal, não são brasileiros.
- Na Eixample, nada de atravessar fora da faixa de pedestres –é preciso caminhar mais, sim! As esquinas são diferentes, e diminuem o campo de visão dos motoristas.
- Disciplina com a pontualidade, mesmo com os novos amigos. Aqui, 14h15 é muito diferente de 14 horas.
- Não se decepcionem com as frutas. Elas são assim mesmo, sem sabor, sempre verdes e caras. Algumas, pobres, chegam de avião, como é o caso da banana e a manga. Natural que estejam verdes na prateleira e passem do ponto rápido. Estresse de viagem.
- Não esqueçam de trazer tesoura ou cortador de unha. Muito caros aqui.
- Cheguem com disposição para andar de bicicleta. Mais agradável que o metrô, menos poluente que o ônibus e mais rápido que andar.
- A água do chuveiro é “dura” mesmo, ou seja, deixa manchas brancas de cal e afeta a pele e o cabelo.
- Aqui não há fartura de comida. As pessoas passam pão no prato, comem cada pedaço de fruta e tomam vinho até a última gota. Difícil ver quem, no restaurante ou em casa, desperdiça comida.
- Tampouco sobra espaço. Essa é uma percepção interessante para quem chega da América, onde tudo é amplo e arejado. Os restaurantes, os apartamentos, as escadas, os banheiros, os comércios etc. são muitas vezes diminutos, comparados com o que temos aí no Brasil.
- Pode tomar água da bica? Sim, mas tem gosto de burro quando foge.
- Poucos pedem desculpas quando esbarram na rua ou onde seja. Portanto, paciência também com isso, mas nunca deixam de dizer vocês desculpa. Quem sabe as pessoas daqui aprendem um pouco de boas maneiras.
- Para economizar, só cerveja e “vino de la casa, por favor” em bar. Para mais qualidade, melhor tomar em casa mesmo.
- Tem perigo nas ruas? Não, e isso vale para as 4 da manhã no Bairro Gótico (pelo menos essa é a minha sensação, muito subjetiva e passível de mudanças). Toda cidade tem das suas, mas aqui é difícil que alguém chegue com arma branca ou de fogo. O que sim há são batedores de carteira, inclusive no metrô.
- Nada de comprar carne no Dia. Nem vira-lata aceita. Melhor no Mercadona ou açougues de bairro (ainda que mais caros).
- No comércio, paciência também com o atendimento. Há poucas pessoas atendendo, e aqui é comum bater papo enquanto se compra ou deixar o cliente em paz. Em um café, por exemplo, pode acontecer de demorarem a atender ou mesmo fingirem que não vêem.
- Para as compras de frutas e verduras da semana, melhor os mercados municipais de bairro. Eles sobrevivem aqui e são uma diversão. Batam papo também com os atendentes, e vejam como é bacana.
Tem mais? Sim, lógico, mas já basta por hoje.
100% Selecció
Tento com esse blog contar um pouco sobre Barcelona a partir de vivências e impressões. Lógico que não dou conta do muito que essa cidade oferece e realiza. Por isso, compartilho hoje uma web interessante com uma seleção de 100 lugares da cidade, entre pontos de interesse arquitetônico, bares, restaurantes e lojas.
Está bem montado, na forma e conteúdo, e bem explicadinho. O site oferece ainda a possibilidade de imprimir mapas por zonas, o que ajuda na hora de se dedicar a uma ou outra parte da cidade. Eu descobri muitos lugares, e a verdade é que nem vi a hora passar. Só não vale esquecer do Per a tothom.
O site aqui.
Post inútil
Não importa se estou em mesa divertida, pois rio até do que não se disse. Ausento-me por segundos, olhar ao vazio. A emoção, latente, é de que ela, como eu, pensa em nós. A distância real dissipa-se, e dá lugar a uma proximidade aparente (ainda que palpável) catalizadora desse sentimento.
Tentar entendê-lo? Não carece. Quem sabe seja simples assim, sentir somente.
E daí a inutilidade dessas palavras.
Trilha BCN
Mais casos nos jornais de violência contra a mulher. Cada dia, edição após edição, os diários espanhóis publicam títulos de esposas esfaqueadas, ex-namoradas assassinadas a tiros, companheiras espancadas, divorciadas degoladas pelos ex-maridos que não aceitam a separação etc.
Também há outro tipo de violência presente, como é o caso do (não) direito ao aborto. Ontem o El País tocou no tema de mulheres que decidem realizar o aborto na França devido à pressão de setores católicos (Las españolas vuelven a abortar fuera). Espanha, em geral, continua extremamente conservadora.
Também ontem pela noite, a Laia, uma das minhas companheiras de apartamento, perguntou se podia guardar a página dessa matéria (eu havia comprado o jornal pela manhã). Foi quando me lembrei de que no banheiro de casa há um cartão postal com uma foto de uma manifestação a favor do direito ao aborto. “Sabe de que época é essa foto?”, quis saber. Laia responde: “Dos anos 70. Dos anos 70”.
Comento esses temas porque faz pouco mais de uma semana comecei a escutar o Jukebox, novo álbum de Cat Power. Ela gravou covers, e uma delas é Woman Left Lonely, de Janis Joplin (curtiu Shirlei?). Ontem, não pude deixar de escutá-la uma vez mais depois de ler o que li e do diálogo com a Laia. Escuta aqui (o play no pé da tela), com a letra original (de lyricsfreak.com):
A woman left lonely will soon grow tired of waiting,
She’ll do crazy things, yeah, on lonely occasions.
A simple conversation for the new men now and again
Makes a touchy situation when a good face come into your head.
And when she gets lonely, she’s thinking bout her man,
She knows he’s taking her for granted, yeah yeah,
Honey, she doesn’t understand, no no no no!
Well, the fevers of the night, they burn an unloved woman
Yeah, those red-hot flames try to push old love aside.
A woman left lonely, she’s the victim of her man, yes she is.
When he can’t keep up his own way, good lord,
She’s got to do the best that she can, yeah!
A woman left lonely, lord, that lonely girl,
Lord, lord, lord!
Próxima estação
O garoto, de cabelo cacheado, vai sentado entre as pernas do metrô. Leva consigo uma caixa branca enlaçada. Não pára de olhá-la.
Bodega Marín
Chama-se Carolina (¡vaya coincidencia!), e está acostumada aos excessos de um ou outro cliente. Dirige o olhar aos que entramos, e de passagem pergunta o que será. Não respondemos a tempo, e só na volta encomendamos duas taças de bom vinho e uma porção de azeitonas. Carolina é ágil, movimenta-se astuta entre os clientes da Bodega Marín (Milà i Fontanals, 72 - mapa aqui), a maioria deles de pé bem no caminho, sem ordem ou consideração pelo seu trabalho. Há dois bancos de balcão disponíveis, e aproveitamos a oportunidade.
Alguém me deu boas referências dessa bodega, daquelas de ambiente original e freqüentadas por clientes assíduos. Senhoras e senhores do bairro, se cabe a definição. Eles dizem e fazem o que querem, ou pelo menos confiam que seja assim. Fazia tempo que desejava participar também, e convidei a Cécile para acompanhar-me. Ela, como eu, identifica-se com esses estabelecimentos, e não rejeita uma boa conversa. Pude reparar que muitos dos clientes eram os mesmos do outro dia, quando passei para comprar um vinho para um jantar. Bom sinal, de que a casa agrada.
Falta ir mais vezes para saber as melhores pedidas, mas só o lugar já vale. E também o prazer de identificar nas estantes das paredes (de fato, não se vê paredes) algumas das melhores marcas de vinhos e cavas. Também há sucos de garrafa, como uma autêntica vendinha de rua. Fecha cedo (às 22 horas), é verdade, mas também madruga (às 7 horas). Carolina diz que para servir cafés, mas seguramente haverá quem, seguindo a tradição aqui na Espanha, pede tão cedo um carajillo (cafezinho preto com conhaque).


