Per a tothom
Um blog em CatalunyaArquivo para Janeiro, 2008
Oito ou oitenta
As eleições da Espanha estão próximas. Em março, os eleitores poderão decidir se Zapatero (Partido Socialista Obrero Español – PSOE) continua no cargo, ou se abre passo a Mariano Rajoy Brey (Partido Popular - PP), candidato com mais chances, segundo as pesquisas (e por falta de uma terceira via), de vencer o atual primeiro-ministro espanhol nas urnas.
A política espanhola vive um momento de marcante dicotomia: de um lado o PSOE, com ações reformadoras, como o casamento entre homossexuais e o diálogo mais intenso com as comunidades autônomas. Do outro, um PP decidido a deixar o centro, demonstrando repetidas vezes uma atitude de extrema direita.
Alguns exemplos recentes:
Aznar aprovecha el congreso de víctimas (do terrorismo) para pedir el voto
Título no El País, sobre o ex-primeiro-ministro espanhol
“Vienen muchos extranjeros a delinquir, porque es muy barato”
Frase de Esperanza Aguirre, líder do PP em Madri
Mais revelador, no entanto, é a insistência de alguns líderes do PP de não aceitar como legítimas as investigações que apontam um grupo de extremistas – e não o ETA – como responsável pelos atentados terroristas contra Madri (2004). A sensação, ao ler os jornais atualmente, é de que os representantes desse partido de oposição tentam impor uma realidade paralela, imaginada por eles e sempre insensível aos fatos reais.
Para quem quiser saber mais sobre os atentados de Madri, e sobre como a administração de Aznar mentiu à opinião pública para evitar uma derrota las eleições da época, sugiro o seguinte texto (longo, mas valioso):
Extra, extra!
Acabo de apresentar a documentação do meu pedido de nacionalidade no consulado português em Barcelona.
Expectativa a mil.
Só comparável ao instante mágico que antecede o primeiro beijo.
Trilha BCN
Há músicas que me fazem parar, esquecer por um momento a vida cotidiana e pensar: “caramba, e não é que eu tenho o privilégio de viver nessa cidade tão bonita?!”. Aconteceu nesse fim de semana, voltando para casa pelo Passeig Sant Joan: You don’t know me, Transa, Caetano.
Aprovado (e divertido!)
Estreei esse fim de semana o meu Bicing e pude aproveitar o que considero uma das melhores invenções de uso urbano dos últimos tempos. Basta usar o cartão no ponto de retirada e em segundos o sistema libera a bicicleta. São 30 minutos sem pagar, e centavos de euro por cada 30 minutos adicionais (até 2 horas).
Na sexta-feira, depois de um jantar na casa da Cécile, eu e o Michael fomos pela Gran Vía alegres (no mau sentido, claro), pedalando pela cidade. Passamos pela Plaça Universitat, o Passeig de Gràcia e nos despedimos no Passeig Sant Joan. A partir daí, ele desceu para o Born e eu continuei o meu caminho em direção a Gràcia.
É gostoso pensar que um serviço tão inteligente está disponível assim, por apenas 24 euros ao ano, 24 horas nas sextas e sábados e ao alcance de muita gente. Eu estreei tarde, e faz muito tempo que as bicicletas vermelhas e brancas do serviço aparecem por todos os lados. Há senhores engravatados, moças de vestidinho e sapatos delicados e gente jovem.
Lógico que houve críticas, já que a adesão inesperada aumentou a circulação de bicicletas pelas calçadas. E isso aqui incomoda muita jovem. Também há casos de gente que devolveu a bicicleta, mas o sistema não registrou, o que acaba em uma retirada automática da conta corrente por uso prolongado da bicicleta.
Em geral, porém, os usuários estão mais do que contentes. Paris fez a mesma coisa e teve gente que nas últimas greves gerais, para poder voltar para casa, prendeu a “sua” bicicleta onde podia durante todo o dia (pagando o preço, lógico).
Balanço final
Dia seguinte de festa em casa tem sempre das suas. O cheiro dominante é de vinho defumado, com notas de tabaco e cevada. O chão gruda na sola, cacos de vidro espalhados nos cantos, as gatas de casa entre os restos e não há maneira de não acordar esse anônimo que dorme no sofá. Pergunta por um CD de karaoke, e diz que precisa entrar no quarto de uma das minhas companheiras de apartamento para pegar uma calça porque a sua empapou-se de vinho durante a festa. Boa sorte, amigo! Saio sem dar trela (ou no fim entraríamos os dois no quarto), e abro a porta de casa pensando no café-de-praça-de-domingo.
Quase tropeço em outro deitado no corredor do edifício, entre a nossa porta e a do vizinho. Depois descubro que era o insistente que, durante a festa, tentou cantar uma das meninas do apartamento, passou dos limites e, expulso de casa, decidiu descansar na escadaria. Meu café é sagrado; desço a escada decidido. Faz sol fora, e melhor não despertar a fera.
Volto, e o estranho continua esperando, quem sabe uma reconciliação. Com melhor aspecto, está sentado na escadaria, a cabeça apoiada sobre os braços cruzados – posição ideal para refletir. Melhor assim, para não desiludir a pretendente. Ela que, aliás, dorme em sono profundo. Bato na porta do seu quarto, afinal o vizinho não entenderá essa de um estranho na escada, e pergunto se deixo o rapaz entrar ou se é o tal insistente. Confirma que sim, continua irredutível: “Ahrr, falamos mais tarde”. Entendo a deixa, fecho a porta, e esqueço o assunto.
Quanto a mim, desfruto da minha cama nova escutando Beach Boys, The warmth of the sun. “Hua, Hua, Hua!!!”. Uma ilha de tranqüilidade. Lá fora? Tal e qual.
O meu lugar?
Nunca me senti verdadeiramente estabelecido em Barcelona, pelo menos a ponto de assumir que esse é o meu lugar. O primeiro ano, de curso, foi coisa incerta e bem vivida. O segundo, já trabalhando, representou a incerteza do “ver para crer”. A partir do terceiro, porém, algo começou a mudar. São pequenos detalhes que juntos reconstroem toda a perspectiva.
Lembro do dia que decidi mudar o celular de pré-pago para contrato. Questão de praticidade, mas também um vínculo. Em seguida assinei a primeira revista, e já eram dois envelopes a burcar-me, com nome e endereço. A relação com a namorada avançava, e nada mais natural que morar junto, ter fim de semana em família e viver um lar.
Ainda assim, olhava ao meu redor e não encontrava nada material que me prendesse a Barcelona. O mais valioso, as relações humanas, eu podia levar comigo, mesmo sujeito à saudade. Como quem faz as malas em um momento e despede-se, sempre tive a opção de recolher o que é meu para seguir em frente.
E por isso foi simbóloco comprar, na última terça-feira, uma cama nova para o apartamento. Cama grande, de casal, 2 metros, para caber o colchão que encontrei no quarto ao chegar. Dois metros… Talvez, e pela primeira vez, Barcelona represente um pouco mais o meu lugar.
De volta, e de casa nova
Faz muito tempo que não escrevo para todos. Tanto tempo que nem sei quanto tempo faz. Pensei esses dias que é melhor voltar, recuperar o hábito. Apresento então o meu novo lar, no bairro de Gràcia (onde, onde?!). Minha última relação a dois chegou a um fim, e daí a mudança para Gràcia. No apartamento já estavam a Neus e a Laia, além das gatas Txela e Trini. Todas mulheres, que me ensinarão muito do que falta aprender. El Masnou era uma cidade pequena, com ruas vazias, casas de condomínio e um centro diminuto. Valia a pena porque lá estava a minha companheira, e com ela a nossa casa. Gràcia, por outro lado, parece o centro mesmo de Barcelona. Abro a porta da rua e mal consigo me esquivar das pessoas que passam, dos carros quase tocando o braço e das bicicletas imprevisíveis. Tem muita gente jovem e bonita. Garotas lindas, e rapazes atentos. As lojas resistem em fechar, respeitando os horários que dita a lei. Gràcia tem praças para um café de domingo, além de um dos melhores cinemas da cidade, o querido Verdi. Vou conhecendo aos poucos, e quem sabe nunca passe diante da lojinha especial que cada um diz ter no bairro. São tantas… Pois aqui estou, também para quem quiser me visitar.


