Per a tothom

Um blog em Catalunya

Arquivo para Fevereiro, 2008

Aviso aos navegantes

Agora é pública, pelo menos mais conhecida no Brasil, a dificuldade de muitos brasileiros e viajantes de muitas outras nacionalidades de entrar na Espanha. O problema não se restringe a quem vem do Brasil, longe disso. Uma observação mais atenta permite perceber uma mudança de atitude das autoridades da União Européia.

Espanha nega entrada a 8 brasileiros por dia
(acesso restringido a assinantes UOL e FSP)

França e Alemania pressionam os demais membros da UE nos últimos anos para que “fechem” as fronteiras, dificultando a entrada até mesmo de turistas com visto ou daqueles que, sem a necessidade de apresentá-lo, deixam o avião com a documentação aparentemente incompleta. Muitas vezes, como nos casos relatados pela Folha de S.Paulo, os agentes de imigração simplesmente negam o acesso com justificativas vagas.

A carta de convite para quem diz ficar na casa de amigos ou parentes e uma reserva de hotel para as demais situações são agora indispensáveis. No caso da carta convite, trata-se de um documento que deve ser pedido em uma delegacia (assim na Espanha) por quem vai receber, com a exigência de documentos como o contrato de aluguel ou propriedade do imóvel do anfitrião.

O custo supera os 100 euros. Já não têm validade, portanto, as cartas não oficiais, os e-mails ou fax. Lógico que há turistas que ainda não enfrentam problemas mesmo sem a tal carta, mas é certo que a rigorosidade e o risco de voltar para casa no seguinte avião aumentaram.

A questão aqui vai mais além do “caso brasileiro”. Basta ser um turista propenso a instalar-se de vez na Europa – pelos motivos subjetivos dos agentes de momento –, para ter a entrada vetada. Europa já não considera bem-vindo quem possa ficar, e por isso os controles estão mais rigorosos. A Comissão Européia prepara medidas elaboradas para evitar estrangeiros ilegais instalando nos aeroportos, por exemplo, aparelhos biométricos com leitura da íris. Isso entraria em vigor a partir de 2012.

Enquanto isso, porém, surgirão medidas paliativas, porém não menos efetivas para impedir a entrada mesmo de turistas. Espanha, nesse sentido, parece comprometida com a idéia de mostrar eficiência aos vizinhos França e Alemanha.

Brasil, brasileiro

Simone pergunta em Brasília, cidade onde nasci e começa a minha história:

Ainda sente que o Brasil é teu país?

Boa pergunta. Não porque desconheça a resposta, mas pela reflexão. Querida Simone, penso constantemente sobre isso de viver fora durante anos e se a terra materna vai desaparecendo no peito. Um dia, cansado de tanto querer saber, consultei o Luis, que viveu doze anos em São Paulo. As raízes sempre falam mais alto?, interroguei. A resposta imediata e segura: sim, você acaba voltando, disse.

Esperava desejoso outra resposta, uma que confortasse com a idéia de que será, sim, possível viver para toda a vida em outro país. A constatação do Luis, no entanto, reflete a realidade. As adaptações qualquer um supera, seja o idioma, o clima ou as condições de vida mais ou menos favoráveis. No fundo, porém, um estrangeiro jamais transforma a sua condição. Isso de estar fora supõe ser sempre o outro, o que não pertence de fato. Daí o saudosismo de uma terra materna supostamente mais receptiva, ou reconhecível.

Respondendo à pergunta, sinto o Brasil, sim, como o meu país. O legítimo, que não me impede de adotar outros e sentir-me confortável com a situação. Até porque disponho do maior prêmio de um estrangeiro: a porta aberta se o daqui já não preenche.

“Kosova is 2 days old”

Cidade de filme

Hoje, assina o post o André, amigo de São Paulo, que me enviou um e-mail com as palavras certas. Ele escreveu assim:

“No último sábado vi o Albergue Espanhol! Passou na TV a cabo!

Como é bom! E, claro, é impossível não relembrar algumas situações e lugares dessa linda Barcelona!

Mas duas coisas me chamaram muito a atenção, baseando em sensações minhas cruzadas com as do personagem do filme:

1 - Pelo jeito, a cidade tem mesmo o poder de abrir a cabeça das pessoas, deixando muito clara a noção de como é ser um cidadão do mundo… de como é estar em contato com as mais diversas pessoas das mais diversas culturas e se identificar com elas. Meu irmão foi recentemente a Nova York, também disse que lá tem gente de todo o canto do globo… mas não destacou em nenhum momento esse efeito que Barcelona exerce!

2 - É impressão minha ou Barcelona realmente atrai pessoas em momentos complicados - ou decisivos - da vida?”

Especial 15 segundos: Barceloneta

Fosse documentarista de formação, faria um vídeo sobre a Barceloneta, dos bairros mais acolhedores de Barcelona. Está ali, entre o mar e a avenida, como ilhado. Vivem lá dos últimos moradores saudosos de uma Barcelona mais provinciana, atenta aos seus.

Nas ruas angustas da Barceloneta, as roupas no varal parecem brincar entre si, e desse divertimento surgem cores de matiz. Quem caminha por lá escuta as vozes sufocadas dos lares apertados e das escadas dos edifícios. As fachadas descascam e as extremidades já nao conservam os ângulos retos de outros tempos. Quem sabe por isso as flores nas janelas repousam mais atrativas.

Nos sábados, a praça do mercado atrai moradores que se distraem com seus filhos no parquinho, os cachorros zanzam perseguidos por outros, nas mesas de pingue-pongue o pai faz papel de árbitro e placar e parece haver um desfile de carrinhos de bebê. Mais de uma vez, pode-se escutar cumprimentos em nomes próprios, afinal muitos são conhecidos da vizinhança. Há estrangeiros recém-chegados ou mesmo instalados no bairro já há algum tempo, mas eles também demonstram a cordialidade dos moradores mais antigos.

A Barceloneta talvez seja um dos melhores lugares para tomar uma cerveja de fim de praia no verão, tanto porque a praia está a poucos metros quanto pelo ambiente do bairro. Uma das reclamações mais recorrentes de quem leva anos vivendo ali é de que o bairro perde identidade pouco a pouco, exposto à especulação imobiliária.

Há verdade nisso, mas quem pode com o próprio passar do tempo? As cidades crescem, adaptam-se e transformam-se. A Barceloneta do passado podia ter mais personalidade, segundo muitos, mas não será a Barceloneta de hoje também um bairro de caráter forte? Para mim sim, e tomara não mude.

“Taking Play Seriously”

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FOTO: Tom Schierlitz para The New York Times

Não tem nada a ver com Barcelona, mas com todos nós.

Quem não gosta de brincar? Aqui

Depois do cinema

E lembremos: ao encontrar aquela pessoa que nos comove, basta externar a emoção que ela proporciona. Sem mais pensar. Assim.

Sobre duas rodas

Quais são os privilégios dessa vida? Os meus estão divididos entre o Brasil e Barcelona, como deve ser com uma vida a dois lares. Ontem, foi dia de um dos privilégios necessários para alegrar o humor.

Pela noite, depois da pizza de quase toda sexta-feira, é muito provável que suba na garupa para entreter-me com a urbe. Com o Luis à frente, amigo catalão com doze anos de vida em São Paulo e para muitos mais brasileiro do que eu, sufoco meu medo respeitoso das motos e entrego-me infante às surpresas do caminho.

Às vezes são edifícios conhecidos, e não menos admiráveis; nos sinais acontece de encontrar o olhar curioso; na avenida incógnita reparo em detalhes para poder voltar um dia; associo o dito ao visto; sinto dentro o vaivém da moto que avança e pára; flagro cores da noite nas vias do meu dia; pergunto por isso e aquilo; balanço-me entre a alegria efêmera e o desejo de continuar até o tanque esvaziar.

Voltar para casa na garupa revive a noite. Despeço-me do Luis como quem poderia seguir, sem por isso desejar menos a minha cama. Nela, fecho os olhos, monto uma vez mais na garupa e perdo-me na cidade do sono.

Obrigado, Luis. Obrigado.

Carrer de la Fraternitat

Sábado pela manhã. Ao lado do Mercado de la Abacería Central.

Por fim

Pela primeira vez no inverno, frio de verdade.

Barcelona deliciosa.

A previsão aqui.

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