Manter a documentação em ordem é uma das maiores urgências cotidianas de quem vive em Barcelona sem passaporte comunitário. No meu caso, foram três anos seguidos de matrículas em diferentes cursos para poder “renovar los papeles”.
Cada vez mais - e aqui vai um aviso aos navegantes -, escasseiam as empresas dispostas a contratar estrangeiros, e daí a necessidade encontrar alternativas. Ser estudante talvez seja a mais cômoda, mas mesmo essa opção, cara muitas vezes, não está ao alcance de muitos. No fim das contas, sempre há a possibilidade da ilegalidade, de deixar o tempo passar até que apareçam um trabalho e um contrato.
Fui inocente, e trouxe para a minha vida pessoal muitas das preocupações relacionadas com o tema. Jamais estive na ilegalidade, estudando primeiro e conseguindo uma autorização de trabalho mais tarde. A nacionalidade portuguesa, no entanto, sempre esteve presente, como um direito garantido - por ascendência -, mas, ao mesmo tempo, ausente. Entre legalizações, envios de documentos a Brasília, traduções juramentadas e esperas longevas, o passaporte português era uma promessa.
Até a última semana. Faltando apenas sete dias para a minha volta ao Brasil, recebo minha certidão de nascimento de Portugal, confirmando que a partir de agora também sou europeu. Viver em Barcelona ou qualquer outra cidade da Europa já não é problema, e ser contratado é só uma questão de apresentar a carteira de identidade portuguesa.
Não pude evitar a celebração, assim como uma saudável risada seca. A ironia não podia ser maior, assim como o aprendizado: tudo chega - e principalmente um passaporte europeu. Cedo ou tarde.


