Per a tothom
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Um anúncio de sábado
Sábado foi dia de um anúncio especial. De que dois grandes amigos se casam, inicialmente no ano que vem. Para dizê-lo, organizaram o que seria um convescote de sábado no parque, mas quis a chuva que nos juntássemos todos na casa do casal. Ali, os amigos reunidos, compartilhamos boa comida, risadas até não poder mais e músicas cantadas.
Na hora do brinde, que valeu uma garrafa especial de um bom vinho francês, celebramos o fato de ela finalmente ter conseguido os documentos de residência (que permitem trabalhar em pé de igualdade com os nacionais). Em seguida, porém, ele fez o anúncio do casamento, despertando reações de surpresa e alegria. Surpresa não porque ninguém esperasse por esse passo mais cedo ou mais tarde, mas porque estávamos tão “a gusto” que tudo parecia um sábado mais.
Barcelona contribui nessa história como a cidade do encontro deles dois, do encontro dos amigos presentes e das novas promessas para todos que brindamos. Para muitos, Barcelona é uma cidade de passo, ideal para quem busca algumas de suas respostas mais íntimas ou um reencontro consigo mesmo em um entorno estimulante (são tantos os que caminham pelas ruas com suas malas de chegada ou de partida!).
Barcelona é isso, e tudo o que cada um queira (é, afinal, muito amiga). Também será sempre a cidade desse anúncio dos dois, do brinde que compartilhamos todos e das respostas que cada um possa encontrar aqui.
“O homem que discute com o diabo”
O diabo existe e dá trabalho!!! Pelo menos é o que diz um dos cinco exorcistas da igreja católica espanhola.
Dias de guarda-chuvas mortos
Dois fenômenos tomaram conta de Barcelona nos últimos dias, ambos relacionados com o mau clima. O primeiro deles: há 12 anos não chovia tanto na urbe. Os pés molhados, as ruas sem secar e os casacos impermeáveis modificaram a aparência urbana, em geral característica de uma cidade de pouca ou quase nenhuma chuva.
Foram mais de 48 horas de água caindo, de sair protegido à rua e, mesmo assim, voltar para casa com a bainha da calça molhada. Imagino que as locadoras de vídeo tenham lucrado mais do que em meses, e quem sabe alguns turistas até tenham detestado Barcelona pelo mau tempo nada amigável.
Outro dos fenômenos: os guarda-chuvas mortos. Jamais havia visto tantos guarda-chuvas deixados pelo caminho. Na estação Jaume I, por exemplo, havia oito esquecidos em um canto, torcidos e quebrados pelo vento.
Pelas ruas, era possível ver o momento exato dessas mortes, quando as pessoas, surpreendidas pelo vento, acabavam com os seus guarda-chuvas virados do “avesso”. Vi mais de uma pessoa que, depois disso, procurava uma lata de lixo para se livrar do seu guarda-chuva já sem vida.
O céu e a terra
Sempre tento olhar para cima, e não perder alguns dos melhores detalhes de Barcelona. Aqui, algumas das vistas dos últimos dias.
Franki em Gràcia
O bairro nosso de cada dia pode ser uma segunda casa – fica fácil notar se mudam os móveis ou a cor das paredes. Depois de um mês fora, percebi algumas diferenças em Gràcia. A principal delas era um tal Franki, sobre quem nunca tinha ouvido falar, mas que deveria estar em apuros, considerando as pichações com o seu nome pedindo liberdade e a sua volta a casa.
Tardei até hoje para saber a história de Franki. O El Periódico de Catalunya publicou notícia (clica aqui) sobre dois jovens que, após comprar entradas para a Sagrada Família com o objetivo de protestar, ocuparam a cabine do guindaste mais alto das obras de construção do templo.
Lá encima, estenderam uma bandeira independentista catalã e acenderam um sinalizador de fumaça para chamar a atenção de quem caminhava pela zona. O motivo: pediam a liberdade de Franki (Francesc Argemí), jovem de Terrassa condenado a dois anos de prisão por “ultraje à bandeira espanhola”.
Desconheço a lei espanhola, mas sei que ser preso na Catalunha por desrespeito à bandeira de Espanha tem um significado maior, de fortes conotações culturais e políticas. Pela tarde, enquanto estendia a roupa no varal, pude escutar um grupo gritando na rua “Franki-de-Terrassa. Lli-ber-tat!!! Mais informação aqui.
Um “causo”
Das muitas qualidades de Barcelona, o sistema de transporte público bem comunicado realmente facilita a vida. Conto um “causo” para ilustrar o post. Não é novidade para ninguém que pratico a burocracia espanhola para manter em ordem os meus documentos de estrangeiro.
E como toda burocracia se mede também em quilômetros, são necessários ônibus, metrôs e trens para entregar tudo na mais perfeita ordem em diferentes balcões de atendimento.
Um dia para lá, outro para cá. A última “viagem” foi para pegar a residência de trabalho. O posto de atendimento da polícia, no meu caso, fica em Badalona, cidade localizada a cerca de 10 quilômetros de Barcelona.
O trajeto começa com o metrô de Gràcia à Plaza Catalunya. Lá é necessário subir no trem com destino a Blanes ou Mataró. Uma vez em Badalona, subo no ônibus B22, que me deixa praticamente na porta da polícia. O melhor de tudo isso é que paguei só uma passagem por todo o trajeto.
Em Barcelona, é permitido fazer quantas baldeações forem necessárias, contanto que na mesma zona da tarifa e sempre que houver uma mudança do tipo de transporte (metrô/trem/ônibus). Facilita ou não facilita? Além de ser economicamente justo.
“Benvingut a casa”
A volta para casa foi tranqüila e especial. Sem tempo nem para desfazer a mala, fui diretamente para a casa do Luís. Jogo do Barcelona é sagrado para encontrar velhos amigos. Por isso, também estavam o Danilo e a Rafa. Não foi dessa vez que o Barça seguiu em frente na competição, mas eu, sim, tive motivos para celebrar a minha volta.
Isso porque as queridas companheiras de apartamento me esperavam com um cartão de boas vindas (”Benvingut a casa”, dizia), bom vinho e conversa até tarde. Fiquei sabendo de suas novidades e compartilhei as minhas. No fim da noite, estávamos todos sorridentes e felizes de voltar a formar um trio imbatível da Travessera de Gràcia.
Hoje, dia útil para quem trabalha, foi a vez de buscar na polícia a tão esperada residência. A partir de agora, posso ser contratado para qualquer trabalho como se fosse um espanhol. A carteira de identidade de estudante não o permitia, e por isso o sorriso na boca agora que tenho a residência. Trata-se de um cartão de plástico, é verdade, mas que faz uma baita diferença. Na Espanha, é quase como uma senha secreta para ser contratado.
E como sempre queremos mais, aproveitei para visitar o Consulado de Portugal em Barcelona para saber como anda o meu pedido de nacionalidade portuguesa. Nenhuma novidade por enquanto. Mais pra frente, disse o funcionário. Esperemos, então.
Portão 24
A caminho de Barcelona, um mês depois, com muitas histórias boas dentro. A verdade? Aquele desejo latente de não encarar essa viagem. Isso porque lá fora (encontro-me à espera no portão de embarque) habitam aqueles que cuidaram de mim nesse um mês. Foi tempo de estar em família, abraçar os amigos e experimentar o carinho gostoso de quem pude conhecer e rever.
Obrigado. Muito obrigado.
No asfalto
São Paulo é de personalidade forte e poucas concessões, mesmo para quem vem de longe. Quem sabe aquele parente distante saiba receber melhor o recém-chegado. No meu desembarque, faz uma semana, o mais provável dos cenários: congestionamento colossal e duas horas para chegar em casa.
As 11 horas de vôo são tempo suficiente para refletir sobre o pior dos mundos, mas só a realidade para mostrar que São Paulo continua senhora de si mesma, sem dar muita bola para quem a habita. Que o diga a família daquela casa ali na beira da marginal, cujo tapetinho de boas vindas quase invade o asfalto.
Outro comportamento ingrato da cidade: o total desrespeito ao pedestre. Essa é a minha terceira vez aqui como “turista”, e sempre é necessária uma dose extra de costume para os maus costumes. Faixas apagadas pelo desgaste, motoristas insensíveis ou quase cegos, falta de sinais de tráfego para o pedestre etc. Outro dia, dirigindo, estanquei em plena esquina para dar passo a um pedestre. Ele, desconfiado, demorou a cruzar a rua. Atrás, escândalo total, buzinas ensandecidas e caras feias.
A boa nova – pelo menos para mim, que ainda não tinha visto – é a ausência de publicidade e fachadas ilustradas por marcas. O Danilo e Rafa me contaram da nova lei ainda em Barcelona, mas não cheguei a conceber o alcance da medida. Uma certa descrença, para ser sincero.
E que diferença. Na rua, comecei então a esticar a vista procurando anúncios resistentes ou fachadas impunes. Nada, nadinha. O que restam são as estruturas e “molduras” dos anúncios em alguns edifícios – quem sabe a esperança de alguns de que a lei não pegue ou dure somente até a próxima administração –.
Mas o melhor de São Paulo continua entre quatro paredes: o encontro com amigos, a casa dos amigos, almoços de família e noitadas pela madrugada.
Só falta a couve em Barcelona
Deixo Barcelona, em breve, por um mês – todo namoro, por mais animado, necessita de ar puro –. Os amigos daqui, sabendo dessa ida, pediram uma despedida (tudo é motivo!), que acabou em uma tarde/noite de feijoada com caipirinha, conversa boa e gente variada. Tudo no apartamento de esquina do Danilo e da Rafa, que abriram as portas e janelas de casa para esse encontro gostoso de fim de semana prolongado.
A sexta-feira foi dia de juntar os ingredientes. Feijoada é esporte sério que exige bom preparo. Por isso, começamos pelo corte das carnes e a frigideira; ela cuidando para que tudo estivesse no ponto. Em seguida, foi a vez de encher com água e feijão a panela do Luis, própria de um filme do Almodóvar. A couve brasileira, que aqui não existe, tem que ser substituida por uma sósia local.
Não importa. Mudam detalhes, mas o amor pela boa comida é o mesmo. E por isso, no dia seguinte, não teve quem não repetisse (ou pelo menos enchesse o prato com sabedoria). Os franceses adoraram, a portuguesa preferiu o nosso modo de fazer a feijoada e até o amigo brasileiro reconheceu que uma que experimentara no dia seguinte era pura fraude.
Para completar, o Danilo, providencial inconseqüente com as pimentas da vendinha da esquina, preparou um caldinho ardente e tentador. Resultado do dia: barriga cheia, alegria (alegriaaaa!) da caipirinha e vontade de mais.








