Per a tothom
Um blog em CatalunyaUm “causo”
Das muitas qualidades de Barcelona, o sistema de transporte público bem comunicado realmente facilita a vida. Conto um “causo” para ilustrar o post. Não é novidade para ninguém que pratico a burocracia espanhola para manter em ordem os meus documentos de estrangeiro.
E como toda burocracia se mede também em quilômetros, são necessários ônibus, metrôs e trens para entregar tudo na mais perfeita ordem em diferentes balcões de atendimento.
Um dia para lá, outro para cá. A última “viagem” foi para pegar a residência de trabalho. O posto de atendimento da polícia, no meu caso, fica em Badalona, cidade localizada a cerca de 10 quilômetros de Barcelona.
O trajeto começa com o metrô de Gràcia à Plaza Catalunya. Lá é necessário subir no trem com destino a Blanes ou Mataró. Uma vez em Badalona, subo no ônibus B22, que me deixa praticamente na porta da polícia. O melhor de tudo isso é que paguei só uma passagem por todo o trajeto.
Em Barcelona, é permitido fazer quantas baldeações forem necessárias, contanto que na mesma zona da tarifa e sempre que houver uma mudança do tipo de transporte (metrô/trem/ônibus). Facilita ou não facilita? Além de ser economicamente justo.
“Benvingut a casa”
A volta para casa foi tranqüila e especial. Sem tempo nem para desfazer a mala, fui diretamente para a casa do Luís. Jogo do Barcelona é sagrado para encontrar velhos amigos. Por isso, também estavam o Danilo e a Rafa. Não foi dessa vez que o Barça seguiu em frente na competição, mas eu, sim, tive motivos para celebrar a minha volta.
Isso porque as queridas companheiras de apartamento me esperavam com um cartão de boas vindas (”Benvingut a casa”, dizia), bom vinho e conversa até tarde. Fiquei sabendo de suas novidades e compartilhei as minhas. No fim da noite, estávamos todos sorridentes e felizes de voltar a formar um trio imbatível da Travessera de Gràcia.
Hoje, dia útil para quem trabalha, foi a vez de buscar na polícia a tão esperada residência. A partir de agora, posso ser contratado para qualquer trabalho como se fosse um espanhol. A carteira de identidade de estudante não o permitia, e por isso o sorriso na boca agora que tenho a residência. Trata-se de um cartão de plástico, é verdade, mas que faz uma baita diferença. Na Espanha, é quase como uma senha secreta para ser contratado.
E como sempre queremos mais, aproveitei para visitar o Consulado de Portugal em Barcelona para saber como anda o meu pedido de nacionalidade portuguesa. Nenhuma novidade por enquanto. Mais pra frente, disse o funcionário. Esperemos, então.
Portão 24
A caminho de Barcelona, um mês depois, com muitas histórias boas dentro. A verdade? Aquele desejo latente de não encarar essa viagem. Isso porque lá fora (encontro-me à espera no portão de embarque) habitam aqueles que cuidaram de mim nesse um mês. Foi tempo de estar em família, abraçar os amigos e experimentar o carinho gostoso de quem pude conhecer e rever.
Obrigado. Muito obrigado.
No asfalto
São Paulo é de personalidade forte e poucas concessões, mesmo para quem vem de longe. Quem sabe aquele parente distante saiba receber melhor o recém-chegado. No meu desembarque, faz uma semana, o mais provável dos cenários: congestionamento colossal e duas horas para chegar em casa.
As 11 horas de vôo são tempo suficiente para refletir sobre o pior dos mundos, mas só a realidade para mostrar que São Paulo continua senhora de si mesma, sem dar muita bola para quem a habita. Que o diga a família daquela casa ali na beira da marginal, cujo tapetinho de boas vindas quase invade o asfalto.
Outro comportamento ingrato da cidade: o total desrespeito ao pedestre. Essa é a minha terceira vez aqui como “turista”, e sempre é necessária uma dose extra de costume para os maus costumes. Faixas apagadas pelo desgaste, motoristas insensíveis ou quase cegos, falta de sinais de tráfego para o pedestre etc. Outro dia, dirigindo, estanquei em plena esquina para dar passo a um pedestre. Ele, desconfiado, demorou a cruzar a rua. Atrás, escândalo total, buzinas ensandecidas e caras feias.
A boa nova – pelo menos para mim, que ainda não tinha visto – é a ausência de publicidade e fachadas ilustradas por marcas. O Danilo e Rafa me contaram da nova lei ainda em Barcelona, mas não cheguei a conceber o alcance da medida. Uma certa descrença, para ser sincero.
E que diferença. Na rua, comecei então a esticar a vista procurando anúncios resistentes ou fachadas impunes. Nada, nadinha. O que restam são as estruturas e “molduras” dos anúncios em alguns edifícios – quem sabe a esperança de alguns de que a lei não pegue ou dure somente até a próxima administração –.
Mas o melhor de São Paulo continua entre quatro paredes: o encontro com amigos, a casa dos amigos, almoços de família e noitadas pela madrugada.
Portão 55
Primeira semana de férias. O sol vivo em Barcelona no último dia 31 foi bom sinal, um presságio bem-vindo de que o merecido descanso com a família e amigos prometeria. O portão de embarque 55 ainda mostrava a chamada para um vôo com destino a Cairo, mas logo mudou para Zurique, onde esperei seis horas pelo avião – esse, sim, um gigante – que me deixou alegre em São Paulo. Foi uma longa espera para ler, escutar música e pensar em chegar.
Barcelona fica no coração de momento, encantadora como sempre. A paixão é física, daquelas de início. E para que dure mais desse jeito assim, nada mais saudável do que um descanso, a oportunidade para refrescar a vista, os ânimos e a sensibilidade. Além do que, Barcelona sabe que volto.
Girando o corpo uma última vez antes de embarcar, pude ver bem distante o Mont Serrat, um dos símbolos catalães. Foi a última imagem guardada dessa despedida de Barcelona com sabor de “volto já”. E como é bela a imagem dessa montanha simbólica da Catalunha.
Muito parecida com algumas imagens de outras épocas em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Só falta a couve em Barcelona
Deixo Barcelona, em breve, por um mês – todo namoro, por mais animado, necessita de ar puro –. Os amigos daqui, sabendo dessa ida, pediram uma despedida (tudo é motivo!), que acabou em uma tarde/noite de feijoada com caipirinha, conversa boa e gente variada. Tudo no apartamento de esquina do Danilo e da Rafa, que abriram as portas e janelas de casa para esse encontro gostoso de fim de semana prolongado.
A sexta-feira foi dia de juntar os ingredientes. Feijoada é esporte sério que exige bom preparo. Por isso, começamos pelo corte das carnes e a frigideira; ela cuidando para que tudo estivesse no ponto. Em seguida, foi a vez de encher com água e feijão a panela do Luis, própria de um filme do Almodóvar. A couve brasileira, que aqui não existe, tem que ser substituida por uma sósia local.
Não importa. Mudam detalhes, mas o amor pela boa comida é o mesmo. E por isso, no dia seguinte, não teve quem não repetisse (ou pelo menos enchesse o prato com sabedoria). Os franceses adoraram, a portuguesa preferiu o nosso modo de fazer a feijoada e até o amigo brasileiro reconheceu que uma que experimentara no dia seguinte era pura fraude.
Para completar, o Danilo, providencial inconseqüente com as pimentas da vendinha da esquina, preparou um caldinho ardente e tentador. Resultado do dia: barriga cheia, alegria (alegriaaaa!) da caipirinha e vontade de mais.
Para dizer e ser ouvido
Algumas palavras e expressões, em Barcelona, dão o que falar. Exemplos:
“España es un país…”. Prepare-se!!! Qualquer referência a Espanha como país, dita na Catalunha, gera discussões de uma noite inteira. Um espanhol mais “Olé, olé, somos España!” adorará a frase, mas um catalão mais purista poderá até tentar a catequese.
“Hablar español”. Melhor dizer “hablar castellano” porque há o catalão, o galhego, o euskera etc.
“A meados de mes…”. Com certeza será mais prudente “A mediados de mes…”, já que “meados”, em castelhano, é mijados.
“Voy a sacar una fueto”. Ups, o pior do portunhol, porque é fácil de sair. Foto é foto, também em castelhano.
“Estoy caliente”. Frase perigosa, principalmente se dita à avó dela(e), no primeiro almoço em família do qual você participa (o que eu fiz uma vez!). O certo é “Tengo calor”, já que a outra frase envereda por outros caminhos.
O melhor de tudo é experimentar e dar risada de essas e outras boas no dia a dia. Bem desprevenido mesmo, quando as diferenças do idioma pregam uma boa peça.
Flores e modernismo
Algo realmente difícil de encontrar em Barcelona: lojas, restaurantes e estabelecimentos em geral 24 horas. Com exceção das bancas de jornais das Ramblas, algumas farmácias e discotecas, pode esquecer o costume de vagar pela noite como um consumidor do dia. Pena, porque muitas vezes dá vontade de sair para aproveitar os sabores da urbe também pela madrugada.
Outra exceção é a floricultura Fills de C. Navarro (Carrer València, 320 – mapa aqui), aberta todos os dias do ano, 24 horas por dia. Uma das minhas surpresas de ex-namorado foi levá-la de olhos fechados no carro, dizendo que iríamos a um lugar especial da cidade.
Descemos do carro, caminhamos um pouco pela calçada e ela, ainda com os olhos fechados, pôde sentir o perfume das flores. Elas são tantas que, passando pela calçada, é impossível deixar de perceber o perfume gostoso pouco comum em uma cidade.
A floricultura é a salvação de pretendentes de última hora, maridos esquecidos e famílias a ponto de encontrar os parentes. Vale a pena a visita só para observar a variedade de flores e plantas da loja.
Aproveitando, quem passar por lá não deve deixar de caminhar atento pela València em direção ao Passeig de Gràcia, observando as fachadas dos edifícios (muitas delas modernistas).
Ou seja, uma dica de flores para receber a primavera.
Barcelona cara
Ontem, algumas das manchetes dos principais jornais da Espanha e Catalunha diziam que Barcelona já é tão cara quanto Nova York. Segundo dados do banco suíço UBS, com base na comparação entre o poder de compra dos cidadãos e o custo da cesta de compras, o valor dos salários, as deduções nos salários e as horas trabalhadas, Barcelona ocupa o 20º posto no ranking da entidade bancária, apenas duas posições atrás de Nova York.
Em 2006, a capital da Catalunha aparecia na 28º posição. Aqui, sim, está a informação. Dois anos são suficientes para sentir no bolso os aumentos de preços. Falo por experiência, que em três anos pude reparar como diferentes produtos e serviços subiram durante o período, fazendo de Barcelona uma cidade não tão divertida para quem vive aqui. Alguns conhecidos até voltam surpreendidos de Paris por causa dos preços mais ou menos equivalentes, o que era impensável faz poucos anos considerando que Paris é Paris.
Alguns exemplos de aumentos de preços:
Em Barcelona:
Metrô (bilhete simples - preços atuais aqui): 1,10 euros (2004) – 1,30 euros (2008)
O litro de leite, que há dois anos custava cerca de 70 centavos de euro, agora não sai por menos de 1 euro.
Em Catalunha, alguns dados oficiais dos últimos 12 meses:
Alimentos e bebidas: aumento de 6,6%
Hotéis, cafés e restaurantes: aumento de 5,3%
Habitação: aumento de 5,7%
No mesmo período, a inflação foi de “apenas” 4,4%.
Repito: Paris é Paris. Nova York sempre será Nova York. E Barcelona parece querer ser a Barcelona.
De não ter um lar
O recente comentário da Illa sobre o post anterior, de tão verdadeiro, merece um post próprio.
Fato.


